quarta-feira, dezembro 1

A queda de um Governo segundo inspiração Cavaquista!

A queda deste Governo começa com uma ironia interessante: Sampaio parece inspirar-se no último e mais sério conselho do seu opositor nas primeiras corridas presidenciais a que concorreu - Cavaco Silva; foi Cavaco Silva quem, esta semana, disse que "está na hora do políticos competentes afastarem os políticos incompetentes"! E Sampaio, pura e simplesmente, seguiu essa máxima que, em qualquer país, deveria ser uma verdade e uma prática obrigatória!

Aparentemente, o episódio Henrique Chaves foi apenas a gota de água que fez transbordar este copo já de si muito instável; o Orçamento de Estado foi outro vector que o PR não terá gostado muito! E, por fim, o clima de desconfiança óbvia no seio do próprio PSD em relação à capacidade política de Santana..

A verdade é que de uma coisa Santana pode queixar-se: o seu projecto político de governação nunca foi bem amado pelo seu próprio partido! Desde o primeiro minuto que alguns dos mais notáveis barões do PSD demarcaram-se da figura e da condução política de Santana, nunca coibindo-se de o criticar publicamente! Mas não deixa de ser menos verdade que o agora ex-PM tudo fez para lhes dar razões e argumentos! Este Governo estava descrente, desanimado e quase em coma porque era visível para todos que Santana não emitia ou transmitia uma ideia, um projecto ou uma direcção! Mais grave do que isso, o think-tank de Santana era vulgar e familiar, dando prioridade às relações de amizade em desprimor da capacidade intelectual e política; por outras palavras, Santana era uma estrela apagada no meio de uma equipa sem talento e sem sentido colectivo!

E Jorge Sampaio fez o que tinha a fazer: afastou os incompetentes!

Quem perde e quem ganha? Umas curtas e rápidas palavras...


Quem perde...


Portugal - independentemente da justiça ou da injustiça da decisão de Sampaio, Portugal enquanto nação, perde; perde no que diz respeito à sua imagem para o exterior, em termos orçamentais (teremos um regime de duodécimos até à apresentação de novo Orçamento de Estado), em termos da estabilidade dos mercados (pouco significativo!) e poderá também perder no que diz respeito ao sentimento de segurança e confiança da população; um país em Governo de gestão é sempre um país fragilizado! Mas, creio, tudo isto não passa de um mal menor!

Pedro Santana Lopes - quando Durão Barroso lhe entregou o poder numa bandeja de ouro, Santana estava feliz; na altura não lhe pareceu que estava a receber um presente envenenado! Severamente criticado dentro do seu próprio partido, mesmo com um Congresso que era necessário mas sem qualquer tipo de significado político, nunca conseguiu apagar a imagem de político frágil, demasiado impulsivo e muito pouco racional, misturando amizades com deveres e lealdade para com um povo! Neste mundo, é muito difícil afirmar que um político morreu políticamente, mas a sua travessia no deserto terá de demorar muito, mas mesmo muito tempo! Provavelmente nunca mais terá condições para se candidatar a mais nenhum cargo político de relevância...

Paulo Portas - é também um dos perdedores da noite, na medida em que era o outro parceiro da coligação; mas, mais do que isso, Portas mostrou sempre uma arrogância e um prepotência inadequadas para quem ajuda a comandar um Governo! Além disso, foi sempre um inimigo a abater pela ala cavaquista do PSD que nunca lhe perdoou o que lhes fez enquanto director de O Independente no tempo da governação de Cavaco Silva! Tinha, por isso, dentro do PSD, muitos anti-corpos mas, mesmo assim, Portas nunca deixou de provocar com birras infantis o seu parceiro de coligação... não deverá deixar a liderança do PP, mas o seu futuro político é também muito nebuloso!

Luís Delgado - foi, durante todo a governação de Barroso e de Santana, o mais irritante, parcial e defensor do indefensável dos porta-vozes da coligação; as suas consecutivas promoções honoríficas e salariais vieram provar que é bom ser "lambe-botas" de um Governo; caíu muitas vezes no ridículo, tentado defender acções e ideias (??) que mesmo o mais acérrimo social democrata seria incapaz de proteger! Classificá-lo de jornalista é um atentado para a classe!

Durão Barroso - será sempre visto como o homem que fugiu de Portugal e deixou o país à mercê da catástrofe Santanista! A sua imagem e futuro político nacional esteve sempre unido ao desempenho de Santana e Durão sabia-o; ao assistir à queda de Santana, Durão Barroso é arrastado para o mesmo poço, poço esse de que poderá não voltar a sair!

PSD - muito pouco tempo depois do congresso da pseudo-consagração, Santana volta a colocar o PSD em apuros, mesmo deixando de ser o PM no activo; ele foi aclamado como líder quase incontestado do PSD e, caso não haja nenhum congresso extraordinário (o que duvido seriamente!!), ele será a cara do PSD para as eleições legislativas antecipadas! Com uma imagem completamente descredibilizada e com uma partido que não confia nele, Santana pode cair na tentação da vitimização, atacando o PR pela sua decisão; caso o faça, estará a cometer novo erro crasso, pois esquece-se que está a atacar quem o colocou no poder e quem o tirou do poder por desmérito próprio! Além disso, atacar a primeira figura do Estado, gozando esta de grande popularidade (maior agora que tomou esta decisão!), é um autêntico suicídio político!

Quem ganha...




José Sócrates - um dos delfins de Guterres mas, ao contrário do que se pensa e diz, muito diferente do mesmo no que diz respeito ao modo de actuar; se as eleições fossem hoje, o PS teria maioria absoluta devido ao total desmérito do Governo e não, ainda, devido à sua acção; porém, a sua imagem perante o povo está a crescer fortemente e, perante, um adversário muito enfraquecido, Sócrates pode demonstrar toda a sua sintética inteligência; o líder do PS parte com uma outra vantagem: a sua equipa é claramente muito forte e diz-se que será António Vitorino (um dos peso-pesados do PS e um militante de inegáveis qualidades) quem vai ser o principal contribuinte para a construção do plano de Governo do PS.
Mas uma coisa Sócrates tem de ter agora presente: pode estar para muito próximo o seu momento mas, para isso, terá de apresentar soluções e trabalho; terá de esquecer-se que é político e passar a agir como candidato a PM com ideias fortes e claras sobre o futuro do país! E ainda não ouvimos muito...
Caso não consiga a maioria absoluta, deverá governar isolado; o PCP com a nova liderança é pura e simplesmente mais do mesmo ou pior e o Bloco de Esquerda não tem a força e a dignidade necessária para ser parceiro de coligação!

Cavaco Silva - com Santana como PM, a sua corrida para Belém não seria muito apetitosa; indirectamente e directamente sempre criticou Santana Lopes enquanto político e enquanto homem e também sabemos que Santana nunca morreu de amores por ele; neste momento, apareceu um tapete bem vervelho que o vai levar à corrida presidencial!

Marcelo Rebelo de Sousa - tal como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite, foi um dos mais mediáticos sociais democratas a criticar duramente Santana Lopes; a sua obra saíu-lhe cara, ao ser afastado, com pressões governamentais, do seu púlpito televisivo semanal! Entrará na corrida pela futura liderança do PSD?

Marques Mendes - foi a única voz contestatária à estratégia e figura de Santana no congresso do PSD; claramente para marcar terreno e preparar uma nova candidatura à liderança do PSD, Marques Mendes, ao comparecer no combate, ganhou muitos pontos e, conjuntamente com Marcelo, pode ser um dos possíveis sucessores de Santana (se houver congresso extraordinário!).



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